CHARLES CHRISTOPHER PARKER JR – CHARLIE PARKER

Não adianta, eu não consigo…eu não consigo gostar do Charlie Parker”.

Início da década de 80 e como quase todo sábado, fazia minhas garimpagens pelo centro de São Paulo na esperança de descobrir alguns LPs que representassem pérolas e raridades do jazz.

Nessa época, havia lojas bem estruturadas e super conceituadas como as famosas e inesquecíveis Breno Rossi e Bruno Bloes, mas como sempre, a ironia do destino acabava me conduzindo para uma lojinha cujo nome desconheço, localizada na rua Sete de Abril, quase em frente a TELESP.

Esta lojinha talvez fosse a maior distribuidora dos LPs do selo IMAGEM, que pertencia ao saudoso Jonas. Os LPs do selo IMAGEM eram super econômicos, nem sempre bem gravados, mas era possível encontrar títulos de quase todos os grandes intérpretes do jazz.

Foi lá que descobri os LPs de Charlie Parker, cujo músico conhecia apenas de nome, mas sabia que ele era considerado pelos críticos de jazz como um dos grandes talentos do gênero.

Ótimo!!!…Encontrei e comprei todos LPs de Charlie Parker que encontrei na loja, aproximadamente uma dezena de títulos e fui feliz para casa para curti-los durante todo o final de semana.

Escutei, ouvi, escutei…e não consegui gostar e entender “Bird”, famoso apelido de Charlie Parker pois suas frases musicais saiam de seu sax de uma forma esvoaçante e improvisada como se fossem pássaros ( dizem também que seu apelido foi consequência de um atropelamento de galinhas e ele aproveitou a oportunidade para fazer um banquete para os amigos músicos).

Após conviver intimamente uma semana com os LPs de Bird, voltei à lojinha da Sete de Abril no sábado seguinte para tentar devolver ou trocar os famigerados LPs.

Então, o senhorzinho que sempre me atendia falou: ”Não troque os LPs, o problema é que você ainda não entendeu a música de Charlie Parker. Ao ouvir Bird, concentre-se nele e procure esquecer John Coltrane, Sonny Rollins, Dexter Gordon, Ben Webster e imagine que a música de Bird é a única existente na face da Terra, e evite fazer comparações”.

Voltei para casa, reescutei os LPs, aprendi e compreendi a música de Bird, e finalmente descobri porque ele é considerado o maior improvisador do jazz de todos os tempos.

Na lojinha do All of Jazz, às vezes alguns clientes interessados em conhecer um pouco de jazz tentam comprar CDs de Charlie Parker, e após um exame de consciência, eu procuro desencorajá-los sugerindo que comecem com Paul Desmond, Coleman Hawkins, Dexter Gordon, Don Byas e talvez daqui a dois ou três anos possam se aventurar a conhecer um pouco de Charlie Parker.

Charles Parker Jr. nasceu dia 29/08/20 em Kansas City, Missouri. Seu pai, um bailarino de sapateado bebia demais e largou a mulher antes de Charlie completar 11anos. Ganhou um sax de sua mãe aos 13 anos, inspirou-se em Buster Smith e aos 15 anos abandonou a escola, incorporou-se a banda local e começou a beber e fumar maconha. Casou-se aos 16 e tornou-se pai aos 17 anos.

Separou-se e foi para New York e nunca mais voltou. Personalidade magnética, tinha uma nova abordagem sobre música, um dos criadores do bebop, um estilo oposto ao espirito do swing e que exigia uma técnica musical muito desenvolvida. Toda vez que tocava estava compondo….e dizia: “improvisar é compor”.

Bird adorava os quintetos clássicos e em 1947 formou um novo grupo com a nova “promessa” do trompete Miles Davis de 21 anos a quem chamava de Junior, e gravaram “Embraceable You”, considerada exemplo de improvisação através de suas frases embraçadas.

Em 1949 foi construído o night club “Birdland” em sua homenagem e logo após em 1951 Charlie perderia sua licença para tocar devido ao consumo de drogas.

Bird e Dizzy após sucesso em New York foram para a Califórnia, mas o vício pela heroína estava acabando com sua vida. Todos os fãs e músicos também queriam usar heroína , para tocar como Charlie Parker.

Lover Man foi a gravação mais catastrófica do mundo…Bird chegou atrasado ao estúdio, todos esperando e tentou tocar sem o seu “remédio”, Saiu do estúdio e foi internado no hospital Camarillo.

Voltou sóbrio, longe das drogas e fez em 1949 sua primeira turnê internacional. Após duas turnês europeias, seu produtor musical Norman Grant formou um conjunto de cordas para acompanhá-lo, o que mostrava seu amor pela música erudita.

Bird disse que quando viajava com seu grupo de cordas, se comportava muito bem, respeitava horários, sempre bem vestido, usava poucas drogas e tentava compensar com o vinho tinto.

Não ouvia jazz em casa, só música erudita, de preferencia Stravinsky e Beethoven. Interessou-se pela pintura, tinta a óleo e fez um quadro “Round Midnight” com vistas de New York e um auto retrato com seu sax, que não gostou e provavelmente jogou fora. Bird sentia que cores e sons estavam intimamente relacionados.

Considero seu melhor trabalho o álbum “Jam Session”, gravado em julho de 1952 em Los Angeles no Tiffany Club, unindo três grandes gênios do sax alto, Charlie Parker, Benny Carter e Johnny Hodges, cada um desfilando seu estilo pessoal.

Em 1954 quando a Time Magazine colocou Dave Brubeck na capa, os amigos de Bird o questionaram, porque não ele e Bird respondeu: “meu relógio está sempre parado, nunca chego na hora”.

No final de sua vida, Bird tocava em bares que eram como lojas vazias, e o vinho barato piorou sua úlcera e houve uma tentativa de suicídio.

Bird fez sua última apresentação no Birdland em 05/03/55 e faleceu 8 dias após na casa da baronesa Nica de Koenigswater assistindo um programa de Tommy Dorsey na tV. O médico estimou sua idade entre 54 e 60 anos e atribuiu a morte à pneumonia.

Charlie Parker tinha apenas 34 anos…

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